domingo, 24 de abril de 2011

DOS LIVROS

ISTO NÃO É NADA DE NOVO; SÃO HÁBITOS HÁ MUITO FEITOS NORMA

"O que era Portugal nos ultimos annos do regimen monarchico todos os sabem. Por triste experiência própria, todos nós o sabemos. Era um paiz a saque. Os cofres públicos, como o tonel mythológico das Danaides, constituiam um sorvedouro sem fundo que absorvia, com indescriptível voracidade, o producto do trabalho sagrado do povo. Havia, de um lado o contribuinte, do outro, o comilão. Era o quadro tão symbolico e tão bem observado que Eduardo Schwalbach nos apresentou na Feira do Diabo: dois irmãos, um dos quaes economisa e trabalha sem descanço, ao passo que o outro esbanja e engorda constantemente.
O povo pagava. Os pobres e os miseráveis, os que moirejam de sol a sol para garantir á família o pão quotidiano, cumpriam á risca os seus deveres cívicos.
Quanto aos opulentos, viviam como senhores feudaes na impunidade de todos os seus crimes, accumulavam empregos e honrarias, compromettiam o paiz em ruinosas negociatas, e erguiam a figura do rei acima de todas as cabeças, exhibindo-a como uma ameaça contra todo aquelle que ousasse atacar-lhes o prestígio."
"Como triunphou a Republica"-Hermano Neves
Empreza Liberdade, 1910; pag. 21
Ed. Fac-símille Letra Livre, 2010